quarta-feira, 13 de junho de 2012

O RISO DE UM PALHAÇO



Ari! Ari é o nome dele. Não sei como explicar isso, mas é este homem que faz meu coração palpitar sem sequer tê-lo visto mais que duas vezes. O que aconteceu, diriam os românticos foi amor a primeira vista, diriam os céticos, foi uma feliz coincidência da vida. O que eu digo? Eu digo que nada poderia me fazer mais feliz do que tê-lo sentido como eu o sinto, o cara me faz suspirar e nem eu mesma posso controlar isso. Pode até ser a força desnorteadora da paixão, mas também pode ser um amor verdadeiro, não é mesmo? E, de mais a mais, acho que todos devem saber como foi que a vida, de seu jeitinho nada peculiar nos apresentou. Então, vamos lá... Não sabem quanto prazer me dá recordar cada momento daquele encontro, no mínimo, inusitado.
“Era o dia dos namorados, a data nunca, jamais será esquecida, 12 de junho de 2012. Eu estava chateada, porque me parecia, claro que isto é bobagem, que todos tinham alguém, mas eu não tinha ninguém. Naquele dia inicialmente tenebroso, as nuvens haviam se ausentado do céu e sentia frio. Pensei” Acho que choverá esta tarde!”“. Meu pensamento atraiu a chuva, eu achei mesmo que tinha esse poder... Mas, estava enganada e em poucos minutos toda neblina, quase 15 pingos que caíram já haviam secado. O sol saíra, Deus sabe de onde, e me impôs, ainda meio molhada, a obrigação de sentar num banco da praça embaixo de uma frondosa arvore e meditar no meu destino, na vida, no amanhã. Sabe aquelas coisas nas quais ninguém nunca deveria parar para pensar? Pois bem, era nelas que eu pensava, quando de repente, aconteceu! Quando abaixei a cabeça para retirar um livro da minha bolsa, eis que uma visão me fez perder toda razão. Aquele era o rosto com que eu sonhara por toda a vida. Se bem que, aquele nariz vermelho, redondo e inchado não fazia parte dos meus planos, mas o sorriso, o sorriso eu poderia conhecer a mil léguas de distância. Eu sorri de volta sem nem sequer saber se ele sorria para mim ou para a deslumbrante senhora de azul que passava. Ele era de estatura mediana, nem alto, nem baixo, eu diria certamente da estatura ideal, mas como não posso me exceder para não contaminar meu relato com meus desejos, então deixemos como está. Estava, e agora eu visualizava bem, usando um nariz de palhaço, graças e luz que finalmente me alcançou pude vê-lo com grande riqueza de detalhes. Tinha a face pintada. Mas, por quê? Juro que ainda não sei. Mas, vou colocar aqui o que eu presumi dele. Um homem simpático deixou isto à vista pelo enorme e gracioso sorriso que dedicava aos pedestres que caminhavam na praça; Era solteiro, porque se tivesse alguém não estaria sozinho naquele ato que creio eu era belíssimo. Também tinha certo grau de equilíbrio e deveria gostar de aventuras. Não era velho, nem adolescente. Acho que devia ter seus vinte e seis ou vinte e sete anos. Apreciava uma boa leitura, vi que nos intervalos do que fazia, relaxava lendo algo que não consegui ver o que era. Amei especialmente algo que ele fez, conto já o que foi. Ele viu um menino de má aparência, meio maltrapilho vindo curioso e feliz em sua direção. Acho que ele não se surpreendeu, pois pegando no colo o menino e sentando no banco, ele abriu o livro que trazia nas mãos e iniciou uma leitura divertida. Ele disse animado:
- Como vai meu amiguinho?
O menino sorria feliz. Tinha os olhos cheios de esperanças e uma expressão inocente no rosto. Ele alegremente iniciou a leitura, o menino foi ao êxtase da alegria, ele imitava as falas dos personagens e o menininho gargalhava intensamente. Mas, nos momentos tensos, o pequeno agarrava sua mão e apertava seus dedos nos dele, via-se que ele sentia-se seguro. Eu os observava, admirada e apaixonada pelo humanismo e beleza da alma daquele palhacinho ali. E também pela felicidade almejada pelo pequeno em seu colo. Ambos pareciam ter alcançado algo que eu jamais presenciara na vida. Uma coisa maior que tudo que eu já vira. No fim da tarde, acabaram de ler o livro, ou melhor, acabamos porque não consegui desgrudar minha atenção daqueles dois. O homem despediu-se do garoto e ele partiu pulando e correndo. Tinha a alma decerto renovada. E o homem começara a juntar suas coisas. Ele iria partir e eu não havia tido coragem de chegar até ele e me apresentar. Mas, pensando bem, o que eu diria? ‘ Oi, Meu nome é Mary e eu fiquei bisbilhotando sua vida a tarde toda!’. Que coisa! Eu estava sem ação. Eu estava sem idéia. Então o deixei ir... Voltei àquela praça durante toda a semana, mas não mais o encontrei. No sábado, já tinha perdido a esperança de vê-lo outra vez, quando caminhava para casa, reconheci na face triste de um garoto, aquele mesmo menino alegre do outro dia. Parecia estúpido, mas era o que me restava, aproximando-me dele calmamente perguntei:
- Menino, você conhece o palhaço que leu para você no domingo à tarde?
O pobre menino me olhou espantado e disse sorrindo:
- O Ari não é um palhaço! - Então era este seu nome, Ari. Bom, ao menos já sabia algo sobre ele. Perguntei feliz ao menino onde eu o poderia encontrar, ele me disse:
- O Ari é meu amiguinho, ele sempre vem à praça no domingo, vestido de algum personagem divertido e lê para mim e meus amiguinhos do sinal. Gostamos muito dele. Ele nos trouxe balas no dia dos namorados. Ele não tem namorada. A senhora é bonita, poderia namorar com ele!
Sorri e agradecendo ao pequeno pensei, ‘ Sim, eu poderia namorar com ele!’, mas nem conheço, que loucura! Segui meu caminho com a idéia fixa de encontrar com ele no domingo.

Domingo finalmente havia chegado! Passei toda tarde de sábado a planejar um modo de chegar ao Ari sem escandalizá-lo, mas não achei. Arrumei meu casaco, estava frio naquele dia, outra vez frio, muito frio. E fui à praça. Quando cheguei lá, não havia ninguém ainda. Pessoas passavam, mas sem compromisso algum de parar um pouco. Busquei minha arvore e sentei no banco disposta a esperar pelo Ari. Em poucos instantes de espera lá estava o dinossauro mais lindo que eu já vira. Eu sorri e esperei que as crianças o deixassem mesmo consciente de que isso só ocorreria no fim da tarde, não pude deixar de desfrutar daqueles doces momentos de uma felicidade tão alheia a mim... E quando acabou e já juntava suas coisas, eu não tomei coragem de ir até lá. Baixei a cabeça e admiti meu fracasso. Não dava! Peguei meu livro e comecei a ler. Ler me tirava da depressão e eu estava na parte boa, então eu não ia ficar pensando na minha covardia. Quando ergui a cabeça ele já estava do meu lado e com uma voz de veludo belga ele disse:
- Oi, Meu nome é Ari. Desculpe vir até você, mas meu amiguinho Lauro me disse que andou perguntando por mim. -Ele olhou para o garoto e sorriu.
-Olá! Nem sei o que te dizer. Espero não ter sido muito invasiva. Vi você no dia dos namorados e sinceramente me encantou sua figura. Você tão gentil com aquelas crianças. Tive vontade de me apresentar, mas me faltou coragem... - Ri um riso de total sem jeito. Meu Deus, que sorriso era aquele daquele homem?
- Sim? Obrigada pela parte que me toca. Gostaria de saber seu nome, pode ser?- Sorria animado. Não parecia que zombava interiormente de minha total falta de desenvoltura.
- Claro. Desculpe de novo; Meu nome é Mary. Mary! Pode me chamar assim.
- Então Mary, o que esta lendo aí?
- É um romance inglês. Um romance policial. Eu gosto desse gênero de leitura. Não é tão hilário quanto o que lê para suas crianças, mas eu me divirto do meu jeito, mas me divirto.
 - Está muito frio aqui, o que acha de tomarmos um café senhorita ou senhora?
- Senhorita, por favor. Não tenho namorado também. - Nossa como fiquei sem graça, como pude dizer isso, que chato!- Ah, Quer dizer pode me chamar só de Mary- Sorri sem graça de novo.
- Não tenho namorado TAMBÉM? Quer dizer que o Lauro andou tentando persuadi-la a me namorar também?- Ele sorriu feliz e divertido.
- Sorri de volta e disse- Acho que sim!
- Moleque danado, ele sempre faz isso com todas as moças que ele vê na rua. - Então vamos. Logo ali na esquina tem um estabelecimento, originalmente chamado de ‘ O café’, eles servem o melhor café e bolo de chocolate da cidade!- Bem, ele continuou falando como se fossemos conhecidos de longa data e daí a instantes já falava pelos cotovelos com ele. Tomamos o melhor café da minha vida e ele me acompanhou até em casa. Marcamos de sair qualquer dia, mas ele ansioso me pediu para marcar um dia, visto que um dia pode ser qualquer dia então que tal ser amanhã?
- “Acho ótimo que seja amanhã...”

E foi assim que conheci o Ari. Não somos namorados, somos amigos. E foi assim que um nariz de palhaço me abriu as portas para conhecer alguém mágico e espetacular. Eu vou contar um segredo. Ele é muito especial. Ele cuida de estranhos como se fossem almas próximas, com um carinho singular. Sempre digo isso a ele, mas às vezes, a gente tem que fazer diferente, não é mesmo? Então eu resolvi contar para vocês sobre ele. Espero que ele goste!


 Texto Dedicado a Ari Alves!