sexta-feira, 7 de setembro de 2012

A VIAGEM


Caminhar por aquelas ruas naquele dia não estava mesmo nos seus planos. Alias, não caminhar sozinho... O que planejara para Veneza era uma segunda lua-de–mel e não um fim, especialmente daquele jeito. O passeio de barca, o hotel fantástico, a lua, tudo! Tudo conspirava para dar certo, mas que droga era aquela? Quem inventou essa coisa estranha e difícil de viver? Isso de que eu tanto corro e no qual eu caio de novo e de novo? Aquela mulher! Tem o gênio da mãe, bem que seu Alcides me avisou. Bom, agora era tarde demais, ate mesmo para lamentar já era muito tarde! Ela se fora com seu orgulho e o deixara frustrado, triste e só. Nossa como posso me sentir tão só assim? Como alguém pode viver com esse enorme ‘rombo’ no peito? Aquela mulher que tanto ama estava matando algo dentro dele. Ele só conseguia se perguntar se conseguiria seguir sem ‘ aquilo’ que até algum tempo atrás se alguém lhe perguntasse ele diria que era uma imensa bobagem, a única verdade do seu coração era que percebeu tarde demais a importância de ter esses sentimentos que muitas vezes fazem a gente ficar bobo, amar não era um jogo como sempre pensara e agora sabia, infelizmente descobriu do pior modo. Perdeu a pessoa que lhe era como uma parte do corpo, seu magnifico complemento. Lutar pra ficar com ela! Valoriza-la! Essas foram às palavras ditas por ela em alto e bom som. Só queria ser amada e cuidada, acaso lhe custava fazer um esforço? Acaso lhe era impossível se importar com alguém mais além de si próprio? Com grande tristeza, concluía agora que Não! Eu poderia tê-la feito feliz e estas ruas não seriam assim tão vazias...
Ele sentia que algo morria lentamente diante dos reflexos de luz na agua... Sentia muito por perder ‘aquilo’ que o fazia existir, mas tinha que deixar ir, não poderia manter algo que fora abortado dentro dele para sempre... Sentia que parte dele ficaria para sempre ali... Para sempre ‘Aquilo’ estaria sepultado nas aguas claras de Veneza!

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

A VINGANÇA

  Ouvi seus passos apressados na escada e me escondi debaixo dos lençóis, enrolei a cabeça no cobertor grosso, em outubro sempre faz muito frio por aqui e a presença inevitável e certa dele me fazia também sentir um ar gelado tomando meu corpo, meu nariz respirava com dor aquele ar pesado de sua pressa total e até, pelo menos às vezes, cruel. Um, dois, três e zais! Ouvi o barulho da porta que se abria e ele a caminhar, agora mais suavemente, em direção à cozinha...  Podia imaginar o modo como pisava aquele chão de cerâmica preta, ele fizera questão de escolher a cor da cerâmica, lembro-me bem que quando dissemos a Lúcia que nosso chão seria preto ela relutou e até criticou, mas ele escolhera e já era claro que seria assim, intimamente sempre preferi azulejos brancos, sempre quis que tivessem desenhos florais, mas ele escolheu os pretos e agora pisava no chão de azulejos pretos que ele escolhera há muitos anos. Podia ver ser quisesse realmente até mesmo a expressão de sua face corada ao abrir a geladeira. Sim! Ele iria ficar corado de raiva porque eu COMI SEU PURÊ... Dá até vontade de rir, só de lembrar a cara dele, ele um dia disse furioso: ‘ Meu anjo, não queira me irritar nunca, mas se quiser pode comer meu purê’, e foi só por isso que hoje comi o purê dele, só pra saber que ele ficou irritado e furioso e que não pode fazer nada a respeito... Ele que começou e apesar de eu estar consciente que isso é meio que criancice, eu já fiz e pronto. E agora posso sentir suas palavras entrando em mim e me ferindo, mas já não importa, pois me sinto vingada! Ele abriu a porta do quarto e tentando fazer o mínimo de barulho possível aproximou-se da cama e descobrindo meu rosto, beijou minha face e disse no meu ouvido “Boa noite, Amor!”...
  Fiquei feliz porque ele aprendeu a lição!


sábado, 1 de setembro de 2012

A BONEQUINHA DE LUXO


Desde aquele dia em que a vira nunca mais pensara em outra coisa. No dia em que estava indo para o trabalho e por um acaso olhou para o lado mais pobre da cidade, avistou a longe o seu anjo do luxo, no meio daquela miséria, viu sentada numa caixa uma moça morena, de pouca condição decerto para está no meio daquele desarrumado universo, ela tinha longas madeixas caídas sobre os ombros, seus olhos reluziam e refletia a luz do sol nascente, em suas mãos grosseiras e aparentemente suaves um livro era delicadamente desfolhado, como se estivesse a declamar um poema. Outros dias passaram e sua visão não mais se pendia para o lado da cidade onde havia belas lojas, luzes de neon e damas refinadas. Seu coração o carregava para as mãos de sua distante menina pobre. Por meses seguia a mesma rotina de esperar o momento do dia em que seus olhos pousariam naquele rosto divino, abandonado ao descaso do dias e dos sonhos, naquele rosto de menina doce, mas tão marcada, aquele mesmo doce ar de inocência e dor que ao mesmo tempo em que o alegrava o torturava. Não podia aproximar-se dela porque viviam em universos distintos e misturarem seus mundos o deixaria sujo, era o que pensava ele, mas seu coração tirando-o desta plena alienação o carregou naquela tarde para o lado da vida que ele nunca quis ou ousou enxergar... Não falou com ela, não a viu naquela tarde em que tomara aquela lúdica decisão de ir até lá.  Apenas, soubera por um vizinho que aquela moça vivia sozinha há anos, fora abandonada e crescera com suas próprias forças, que ela era uma especialista em reformas de livros e uma colecionadora de bonecas achadas no lixão que era quintal de sua casa. ‘ Moço, ela é só uma menina!’, fora o que aquele homem de aspecto rude e sofrido lhe dissera. Agradeceu as informações e pagando por elas seguiu seu caminho certo de que em dois dias teria um livro para restaurar...
Chegou a casa apressado e correu a seu arsenal de livros, nossa, quanta dor lhe causaria estragar um de seus melhores amigos, mas era necessário, então não se fez de rogado e fechado os olhos escolheu uma relíquia literária e a estragou o quanto pôde certo de que no outro dia, aquelas divinas mãos distantes tocariam as dele e consertariam seu livro e quem sabe algo mais dentro dele não fosse também consertado.  Sua trama deu frutos e ele finalmente aproximou-se da moça. Passaram-se dias e meses e muitos livros seus sofriam danos e eram restaurados. Era tanto trabalho de providência que acabaram por tornarem-se ‘mui amigos’, como ele sempre dizia. Ela lhe sorria feliz. Um dia ele perguntou-lhe em meio a uma conversa animada qual o maior sonho de sua vida, esperava que ela dissesse que sonhava sair daquele lugar, ficar rica ou algo assim, mas ela surpreendeu-o com sua resposta e seu coração perdeu-se para sempre no dela.
Quando já fazia mais de ano que se conheciam, ele resolveu que estava na hora de lhe realizar seu maior sonho. Pedira pra um amigo que fora a Europa comprar-lhe algo especial e este o fizera com deboche. Lembrou-se de sua surpresa quando lhe entregou a caixa com o presente, seus olhos faiscaram de uma felicidade até antes pouco conhecida por ele, uma alegria genuína e perfeita! Ele sentira-se um homem bom, uma vez mais quando ela emocionada beijou-lhe a mão carinhosa e respeitosamente.
Voltou para casa feliz e pensava... “Tantas mulheres hoje querem um príncipe, mas a minha amada quis somente uma bonequinha de porcelana, uma simples bonequinha de luxo para sua meiga coleção!”