sábado, 1 de setembro de 2012

A BONEQUINHA DE LUXO


Desde aquele dia em que a vira nunca mais pensara em outra coisa. No dia em que estava indo para o trabalho e por um acaso olhou para o lado mais pobre da cidade, avistou a longe o seu anjo do luxo, no meio daquela miséria, viu sentada numa caixa uma moça morena, de pouca condição decerto para está no meio daquele desarrumado universo, ela tinha longas madeixas caídas sobre os ombros, seus olhos reluziam e refletia a luz do sol nascente, em suas mãos grosseiras e aparentemente suaves um livro era delicadamente desfolhado, como se estivesse a declamar um poema. Outros dias passaram e sua visão não mais se pendia para o lado da cidade onde havia belas lojas, luzes de neon e damas refinadas. Seu coração o carregava para as mãos de sua distante menina pobre. Por meses seguia a mesma rotina de esperar o momento do dia em que seus olhos pousariam naquele rosto divino, abandonado ao descaso do dias e dos sonhos, naquele rosto de menina doce, mas tão marcada, aquele mesmo doce ar de inocência e dor que ao mesmo tempo em que o alegrava o torturava. Não podia aproximar-se dela porque viviam em universos distintos e misturarem seus mundos o deixaria sujo, era o que pensava ele, mas seu coração tirando-o desta plena alienação o carregou naquela tarde para o lado da vida que ele nunca quis ou ousou enxergar... Não falou com ela, não a viu naquela tarde em que tomara aquela lúdica decisão de ir até lá.  Apenas, soubera por um vizinho que aquela moça vivia sozinha há anos, fora abandonada e crescera com suas próprias forças, que ela era uma especialista em reformas de livros e uma colecionadora de bonecas achadas no lixão que era quintal de sua casa. ‘ Moço, ela é só uma menina!’, fora o que aquele homem de aspecto rude e sofrido lhe dissera. Agradeceu as informações e pagando por elas seguiu seu caminho certo de que em dois dias teria um livro para restaurar...
Chegou a casa apressado e correu a seu arsenal de livros, nossa, quanta dor lhe causaria estragar um de seus melhores amigos, mas era necessário, então não se fez de rogado e fechado os olhos escolheu uma relíquia literária e a estragou o quanto pôde certo de que no outro dia, aquelas divinas mãos distantes tocariam as dele e consertariam seu livro e quem sabe algo mais dentro dele não fosse também consertado.  Sua trama deu frutos e ele finalmente aproximou-se da moça. Passaram-se dias e meses e muitos livros seus sofriam danos e eram restaurados. Era tanto trabalho de providência que acabaram por tornarem-se ‘mui amigos’, como ele sempre dizia. Ela lhe sorria feliz. Um dia ele perguntou-lhe em meio a uma conversa animada qual o maior sonho de sua vida, esperava que ela dissesse que sonhava sair daquele lugar, ficar rica ou algo assim, mas ela surpreendeu-o com sua resposta e seu coração perdeu-se para sempre no dela.
Quando já fazia mais de ano que se conheciam, ele resolveu que estava na hora de lhe realizar seu maior sonho. Pedira pra um amigo que fora a Europa comprar-lhe algo especial e este o fizera com deboche. Lembrou-se de sua surpresa quando lhe entregou a caixa com o presente, seus olhos faiscaram de uma felicidade até antes pouco conhecida por ele, uma alegria genuína e perfeita! Ele sentira-se um homem bom, uma vez mais quando ela emocionada beijou-lhe a mão carinhosa e respeitosamente.
Voltou para casa feliz e pensava... “Tantas mulheres hoje querem um príncipe, mas a minha amada quis somente uma bonequinha de porcelana, uma simples bonequinha de luxo para sua meiga coleção!”