quinta-feira, 29 de agosto de 2013

CINCO MESES


    Leone me conhecera por acaso num site de relacionamento.
   Na verdade, por acaso nem é o termo certo visto que ambos estávamos ali a procura de viver um grande amor. Era uma tarde cinzenta, e eu estava entediada com a monotonia de minha vida e achara por bem que navegar pela net acalmaria meu coração ansioso. Como ultimamente havia conhecido muitos caras pela rede, e tido decepções consecutivas por não encontrar neles o que buscava, eu resolvi arriscar algo novo. Um novo site que aparentemente era bem mais serio do que os que costumava frequentar.
    Logo de cara encontrei uns senhores divorciados que criam ser uma boa ideia ter uma namorada mais jovem. Papo chato, cantadas medíocres, nossa! Essa vida de ser virtual estava cansando-me. Eram todos iguais e vazios. E meu destino estava escrito. Eu poderia correr até os confins da terra e ainda estaria totalmente sozinha. Estava desiludida quando o próprio site deu-me algumas sugestões. Um daqueles rapazes parecia ser tão lindo e tinha um olhar tão profundo, meio perdido. Eu lembro, quando eu vi sua foto senti uma pontinha de alegria e esperança surgir no meu intimo. Resolvi ser moderna, dar o primeiro passo, conquistar aquele homem, faze-lo meu para sempre, mas ainda tinha uma duvida, ou duas, ou três.
   Primeira, ele queria ser conquistado? Segunda, ele ia querer ser meu? Terceira, ele valia mesmo a pena? Pois é. Muita duvida pra uma tarde de silêncios. Pensei com meus botões e resolvi que estava certo, eu ia mandar-lhe umas palavras e ver no que dava. Lembrei imediatamente de uma frase que havia lido num blogger, uma frase do Caio Fernando Abreu, “Só queria que alguém me amasse por algo que escrevi”, era muito óbvio que também nem tinha tanta pretensão assim naquele momento, mas da frase eu lembrei com carinho enquanto lhe escrevia aquelas palavras simples e dedicadas. Pra fechar com divina graça o recado, enviei-lhe uma rosa, uma coisa pouco comum num mundo machista, e se fosse um troglodita nem iria mais olhar nada depois que visse a rosa, mas na delicadeza da minha ação também nem imaginei essa hipótese. Naquele rosto angelical havia uma confiança velada que me trazia paz. Um sorriso que me prendia e não me deixou ir sem olhar pra trás, eu sabia que tinha que tentar, só por isso tentei.
   Passaram-se dias sem noticias, e já não acreditava que podia haver algo bom daquela fonte. Tanto silencio, por tantos espaços de tempo, só poderiam claramente entristecer minha alma e fazer apagar-se a centelha ultima de esperança que me lembrava de ter acendido quando olhei nos seus olhos através daquela foto no primeiro dia do meu amor por ele. Em seguida, á morte da esperança, veio à surpresa da fênix, ressuscitando das cinzas aquele doce menino com suas doces expressões de atenção e respeito. Passou-me seu outro endereço virtual. Mudamos de casa e de paisagens. Achei dentro de mim que valia muito a pena tentar saber mais, apesar de tê-lo considerado educado também o achei distante, inalcançável. ‘Se pudesse como um raio de sol tocar-te e sentir-te abraçar-me seria tão bom ter você. ’ Pensava isso enquanto tomava nota de estar sentindo algo novo por um estranho recém-chegado na minha vida. Algo que não me era incomum, mas que ainda assim me era assustador.
  Confessei para mim em segredo devotado que aquilo poderia ser a maior e mais longa aventura já vivida pelo meu coração quando finalmente já não suportando mais a distancia dei mais um passo firme em sua direção. Ainda sem resposta me via despertada, desesperada por algum sinal de vida ou interesse. Quando finalmente estivemos juntos, notei certo apego pelo passado, e me pareceu evidente e declarado. Senti raiva, ciúmes e medo de já estar perdida naquele sorriso que parecia que jamais poderia me pertencer. Mas, quando lhe via a foto sorrindo não resistia a seu ‘Oi’. E admitindo ou não, já estava perdida naquele sonho, e sentia medo de estar lá sozinha outra vez, num mundo que poderia ser lindo a dois, mas que só pra mim era muito grande e vazio.
  Na segunda conversa, tudo foi mais leve, eu esperava menos, estava mais conformada com não seguir aquele caminho. E ai me veio outra fênix, a segunda dessa historia fantástica com ele. A realidade apareceu como uma luz milagrosa salvando da escura solidão minha alma vazia, nossas historias se cruzavam nesse ponto. Ambos buscavam o mesmo porto. Um coração e um amor pra viver. E meu amor era ele e seu amor ansiado era eu. Já estava muito explicito que tínhamos que ser um do outro para sempre. Sabíamos ambos que tudo havia sido ensinamentos e que nosso passado já não existia. Morreram ali todas as feridas não cicatrizadas, lembro-me quando Deus entregou-lhe em mãos aquele livro dourado de capa dura como as letras da palavra VIDA em prata e alto relevo. E quando sorrindo afastou-se de nós, tendo o cuidado amoroso de unir nossas mãos, pediu-nos para abri-lhe e faze-lo completo do melhor modo possível. Era o livro da nossa vida. Nossa vida havia começado ali, no instante que nos conhecemos. Ao unir nossas mãos, casou-nos para toda eternidade por um laço maior e muito mais significativo do que estes humanos e fúteis, um gesto de emoção sublime que ninguém poderia entender ou explicar, apenas sentir. E nós sentimos que éramos um do outro e que nada poderia mudar isso.
   Fomos felizes e tristes juntos. Tivemos desacordos e acordamos muitas vezes em assuntos de ordem diversa. Choramos e rimos, falamos e calamos. Fomos e voltamos... Subimos e descemos. E nada, absolutamente nada mudou no sentimento do primeiro momento. O nosso amor continuou e continua intacto, sagrado, inabalável.
   Hoje faz cinco meses e a gente tem que comemorar. Vamos sair pra tomar um porre de amor e chocolate quente.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

APARÊNCIAS

     Carne branca, olhos negros como noite sem luar...Assim era Sônia.  Dizia-se uma visão incomoda e desejável, aberracional e perfeita! Todos a queriam, pedaços, migalhas, qualquer coisa pra lembrar. Passava indiferente, era sombra, vislumbre intocável. E um dia, como todas as outras, Sônia caminhava perto do lago e foi atropelada por um ciclista distraído, traído por sua beleza cigana, vulgar, humana, quente e distante. 
    Sônia andava sobre a terra como um anjo de outro mundo. Superior, inalcançável. Até chegar a sua casa. Uma morada comum, quarto vazio, sala com um sofá velho e cheio de buracos, cheiro de mofo, cachaça, sangue, cigarro e vômito. Morria no primeiro passo para entrar em casa, qualquer sonho, qualquer felicidade ou esperança conquistada, qualquer olhar angelical que pousara sobre seu coração nas ruas. Indiferente, estava sempre tão presa no seu terrível mundo secreto, tão cheio de dores e angustias.. Um mundo recheado de silêncios medonhos e abomináveis. E outra noite se fora. Num canto do chão um colchonete fino e sujo acolhia triste aquele corpo cansado, sufocado, infeliz.
Um outro sol, a brecha da janela que caia a incomodava demais para poder continuar ali, séria e pensativa. Sentia como que um choque tocar e vibrar por todo corpo e de supetão levanta-se. Vai ao lavabo, sem descrição humana ou  resquícios de alguma esperança. Caminhava trôpega, sentia fome, comeu pizza  de ontem, bebeu agua da torneira, abriu a luxuosa geladeira, suspirou pelo vazio. Vazio no coração, aperto estranho, vazio no estômago, vazio na geladeira. Algo quente e molhado pareceu cair pelas faces abaixo, rolava rápida, uma e depois outra...Sem maldições ou bênção. Vai no quarto, ainda tão vazio, e pega o casaco de Casimira rosa, coloca o seu scapin preto, seu preferido, no pedaço de vidro que aproveitou como espelho, assusta-se, como aquela pessoa no espelho parece divina. Ela procura-se, toca-se, finalmente, ainda descrente identifica-se como a pessoa do espelho, custa-lhe acreditar... É divina. Põe um sorriso largo no rosto, treina o rebolado, sorri de novo. Segue em passos inseguros até a porta. 
   Abandona o mundo sujo, esta salva pela luz do sol quente sobre sua pele. O céu esta lindo, as nuvens a abraçam apertado, os raios daquele sol quente lhe fazem promessas ao pé do ouvido. Sorri. Inteira, feliz. Algo nasce nela pela manhã... Sempre morre ao cair da tarde pra nascer de novo feliz no dia seguinte.