domingo, 1 de dezembro de 2013

DIAS CHUVOSOS

     A chuva tinha para mim um significado especial... Por muitos dias me lembrava ela... Seu sorriso e seu canto febril. Minha sereia encantada, minha eterna rainha de fogo. Era um sonho até que acordei. E naquele dia despertei em meio à tempestade na praia, naquele dia de tormenta, eu odiei a chuva. E sempre que chovia me escondia nos lençóis e tapava com força os ouvidos, preferia ouvir o zumbido que roncava ecoando em mim do que aqueles pingos cheios de lembrança batendo na minha janela. Era tortuoso pra eu saber que chovia sem ela do meu lado. E doía muito saber que tinha acabado e eu também odiava os sonhos por acabarem e deixarem tamanho vazio. E odiava ela por ter feito acabar e como uma visão fantasmagórica ficar me assustando nos dias frios. Mas, eu também a amava por ter um dia me feito amar o céu e a chuva. Aquele friozinho e a leveza das gotas caindo traziam a lembrança do calor de seus braços e a nostalgia de longos beijos ardentes daqueles poucos que temos o prazer de ter na vida. Aquele leve orvalho a cair, quase que num ritmo de uma dança ensaiada trazia a lembrança de beijos suaves na chuva, com o mesmo gosto dos amantes que trocam cartas até finalmente estarem eternamente unidos.
      E na manha de chuva tinha seus olhos mergulhados nos meus e tinha seu canto... Sua doce voz de menina e seus planos bobos, seu jeito traquina de me fazer cócegas e suas tristes marcas pelas minhas costas.  Eu olhava no espelho de agua que a chuva que trazia dias difíceis a minha janela me preparou e eu via toda minha verdade. E ora eram gotas e ora eram lágrimas. E ambas se misturavam e apenas sua temperatura as definia. Eu mentalmente as confundia com um sentimento estranho de esperança, também quente, que nascia. E ao invés de dor como antes, agora a chuva diante das minhas verdades, do meu sentir, levava tudo que doía em mim como um milagroso remédio curando a ferida e sarando por completo a cicatriz. A chuva trazia nesse instante uma profunda cura feliz.
     E depois daqueles instantes encarando a minha rival mortal que por ironia me salvava, eu entendi que meu caminho é maior que essas pequenas perdas e que algo maior que tudo existia e morava dentro de mim... E ai a chuva ficou sendo um marco de paz no meu coração.
      E hoje confesso que conhecendo uma flor, coloquei sobre ela minha alma e me derramei por inteiro, e fiquei tão feliz ao compartilhar nosso amor pela chuva. E nossos sonhos se dividiram não para se perderem, como tantas vezes pensamos, mas para completarem-se. E hoje, aqui fora está chovendo e no meu coração há uma chama viva e acesa que eu nem vou chamar de amor, mas pela esperança que me traz, vou chama-la vida... E vou vive-la devagarzinho... Como se lesse um poema!