quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

O DIA ESPECIAL


         Caminhava distraída. Nem podia supor o que me reservava o acaso daquele dia cinza. E pelo aspecto do céu aquela noite seria bem tumultuada. Não havia um prenuncio de noite como aquele ha dias. E sem lua. A lua parecia ter conquistado o direito sagrado de ausentar-se daquele holocausto. Um incontrolável desejo de vê-la naquela noite me atormentava. Eu a procurava em desespero... Como se fosse a ultima chance de tê-la diante de meus olhos e de certo modo eu estava certa no meu sentir inexplicável.

     Topamos por acaso numa rua escura de Frluye, vivíamos ali há anos e jamais imaginamos, falo por ambos, que estaríamos juntos naquela noite. Sua mão na minha era quente e apertada... Por alguma razão estava suando muito. Falava palavras de despedida. Como se tudo fosse acabar ali, mas o que era tudo nesse caso? O nosso mundo ou a nossa vida? Não dava para saber por suas expressões, pois eram frases vagas e em algumas até usava palavras impronunciáveis. Ele estava estranhamente intimista, introspectivo como nunca antes. Falava de recordações, coisas traumáticas e que nunca ousara antes mencionar. Ele sempre foi calado e eu sempre respeitei seu silencio. Imaginava, nas noites frias em que ele demorava a vir deitar, ficava diante da janela olhando fixamente para lua com uma expressão de desalento, que tinha algo escondido, algo terrível o importunava naquelas madrugadas. 

         Caminhávamos sombrios como a própria noite. Ele me contou que quando era criança sua tia Dora o levou a um barco e quando estavam no meio do nada ela sorriu com riso de desdenho e disse ‘ Menino, vamos morrer, não temos mais como voltar ao porto, sem comida e agua morreremos aqui, temos mais uns dias, só isso’. Ele se apavorou e sentado na proa apenas conseguia chorar. Ela o aterrorizou até ele não suportar... Tentou pular no mar, mas ela não permitiu, o puxou de volta e disse que essas coisas não se faziam... ‘Fugir é coisa de covarde, não somos covardes’. Tínhamos chegado na praia... Nesse ponto da conversa ele puxou-me para diante dele e estávamos frente a frente. Segurou meu rosto docemente entre suas mãos e beijou-me na testa. Eu sabia que aquilo significava que tudo ia ficar bem... Era o nosso sinal. Foi tão lindo. Foi o momento mais bonito da gente. E tudo ficou escuro e eu apaguei.

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       Você era tão especial...  Diante de sua figura branca, fria e com olhos tenebrosos, eu esqueço que foi um dos maiores amores da minha vida. E está morto e não é mais nada.  Eu já matei você. E você não pode nem quis  reagir, era a mulher da sua vida colocando aquele punhal em seu peito enquanto você a beijava na testa... E eu sabia que você sabia que eu te amava e tudo ia ficar bem... Graças a seu gesto agora sei que sim, tudo vai ficar bem...

      E agora tudo é vazio... Entre uma taça e outra de vinho eu sinto falta dos seus passos bobos pela casa... E começo a imaginar que aquela borboleta na janela me olhando tão suavemente é você. E talvez ainda dentro de mim exista algo que queria trazer você de volta. Mas, você está morto para mim e não poderia mudar isso... ‘Tudo vai ficar bem’ você me disse no silencio de um beijo... E me fui... Eu conformada segui meu caminho... E você também se foi para sempre.

        Ando tão assim... Sem você...