quinta-feira, 27 de março de 2014

MEMÓRIAS DE UM CARTÃO


Eu sei que a coisa que se faz mais bonita nessa vida é tirar das minhas lágrimas algo bom para escrever que ao invés de magoar alguém ao ler, simplesmente emocione. Mas, tão poucos têm esse dom, de falar sobre flores e esperança enquanto seu mundo interior desmorona, enquanto tudo que se acredita está sendo sufocado e apagado por alguém tão tolo que chega a ser distraído. E se desse poço escuro eu conseguir arrancar uma vermelha rosa feliz, serei então uma heroína, uma eterna heroína!”

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Era isso que eu pensava naquela tarde triste de quinta feira, naquele março a vida parecia árdua demais e dolorosa demais. Eu sentia uma grande agonia por algo que estava sendo abortado dentro do meu coração e eu queria gritar, mas já não podia, pois nesse instante qualquer esforço seria mesmo uma inutilidade.
 Então encontrei sobre a mesinha tosca que fica na minha sala, bem junto do abajur de constelações que certo amigo poeta me presenteara e que eu sempre amava admirar nas noites de luar, bem debaixo de uma pilha de papeis de carta e de uma agenda de capa preta do ano de 2017, bem velhinha mesmo e já com folhas amareladas pelo tempo, gostava de coisas envelhecidas mesmo, era uma fraqueza de minha alma, ainda o é, mas hoje em menor grau, bom, mesmo ali estava ele! Um pequeno cartão que ganhara de aniversario de namoro de um antiguíssimo namorado. Lembro-me dele sempre com tanta clareza, do cartão claro, pois o namoro foi bem tortuoso e tão perturbador que até lembrá-lo hoje poderia me revolver a loucura anterior.
Mas, o cartão era divino, belíssimo!  Parecia-me muito um postal de Paris, ou eu que sempre desejei que a isto ele se assemelhasse, também agora não saberia especificar isso, mas o fato em si é que era magico. Tinha uma cobertura suave de veludo vermelho intenso, nunca soube graduar bem as cores, portanto, desde já me sinto perdoada por não fazer uma perfeita descrição dessa cor que era para mim incomparável. Tinha uns desenhos indecifráveis, apesar de ter de confessar finalmente que por anos eu tentei desvenda-los, talvez se tivesse conseguido pudesse ter entendido a fonte dele e até seu jeito obscuro de sentir o que jurava sentir, mas que jamais soube demostrar. Este pensamento me invadiu muitas vezes, eu queria mesmo acreditar que isso seria possível.
O cartão era como um apelo por um amor medíocre, por querer ser aceito assim, tão mesquinho, tão pequeno, e mesmo assim jamais perdeu sua esplendorosa beleza, e eu desconfio que isso tenha que ver com as palavras que lhe vinham gravadas tão docemente. Eram, já por muitos anos, aquelas palavras que vinham vez após vez, salvando-me de mim mesma e de todos os tipos de abandonos.
Era um senhor cartão, cheio de vida e cores vibrantes, pelo vermelho indescritível já se podia presumir o que era aquele pedaço de papel meio durinho, dobrado e que parecia chorar e sorrir ali na sala, junto do abajur de estrelas que ganhei do meu amigo poeta. Tudo tão meu e tão sem dono naquela sala... E aquele cartão vivo deixando tudo mais bonito e um pouco feliz.