quarta-feira, 23 de julho de 2014

MÁGICA LUNAR



Quando entramos em casa estava frio lá fora, a previsão do tempo indicava que poderia nevar. Tínhamos uma boa garrafa de vinho branco envelhecido sobre a mesa de centro, dois japoneses para forrar o estômago, um jarro com orquídeas e duas taças ansiosas. Um cobertor de lã e fibras e um assento diante da lareira. Íamos comemorar em grande estilo, afinal não é todo dia que se encontra o amor da sua vida. Tínhamos uma sensação boa de aconchego e conversa para uma noite, ou a vida, inteira. E foi assim que começamos a descobrir a felicidade a dois.
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Eu conheci o Sebastian numa livraria que fica no quarteirão ao lado da minha casa e é um anexo de um café que sempre frequento nas quartas quando tenho um tempinho sobrando. Eu, uma farmacêutica recém-formada, e Sebastian um astrônomo brilhante com um imenso conhecimento, e eu sei que ele vai longe. Um dia estava com ele diante do mar e comentei ‘ você vai longe’ e ele sorriu e me respondeu ‘não tenho muitas certezas na vida, não sei até onde vou chegar, mas uma coisa é certa... Quero você ao meu lado’. Temos uma cabana no topo da colina Simers, vemos o céu juntos e admiramos tudo. Gosto do jeito como ele tenta me fazer achar as três Marias, apontando-me onde a lua está e onde estão cada uma das constelações que dele são tão familiares.
No nosso aniversário, dia 28 de julho, ele me levou no observatório nacional e me deu o melhor presente que já ganhei na vida. Naquela noite vimos uma chuva de meteoros e a lua... Senti-me tão emocionada, ver a lua tão de perto, quase podia sentir como se tocasse nela com meus olhos. Uma grande emoção toma conta de mim e agradeço-lhe por me fazer viver aquele momento. Ele sorri feliz, abraça-me e diz a coisa mais bela que já ouvi na vida.
- Meu céu, quando te conheci você estava decepcionada, vinha de um amor unilateral e fracassado. Tinha cicatrizes e até feridas emocionais abertas no peito. Mas, vi em você a lua... Sabe por quê? A lua é ‘deformada’ por suas crateras, elas são análogas as cicatrizes que todos temos. Mesmo assim, nunca perdeu seu brilho, nunca deixou de ser fascinante e interessante, é sempre a mais bela de todas cada vez que aparece. Ela é sempre única... Ninguém nunca vive duas luas idênticas na vida.  E ela tem milhões de apaixonados que a contemplam e a namoram eternamente. Então, o que são nossas cicatrizes diante das imensas crateras na lua?
Seu pensamento era reflexivo e inteligente e ainda mais comovente pelo som da voz embargada de sentimento que o pronunciava.  Sorri e o abracei forte. Senti o seu amor, ele não precisava me dizer nada. Ele beijou minha testa docemente sussurrando baixinho ‘ Você é minha lua’.

domingo, 20 de julho de 2014

CONFIDÊNCIAS DE UM SILÊNCIO



Sabe que fico surpresa. Como pode você que jamais me viu pessoalmente, olhou nos meus olhos ou sentiu minhas mãos saber tanto de mim e conseguir ler-me em silencio? Quando ouvi sua voz límpida ao telefone já podia sentir que era hora de virar a página e me reconstruir com o que tenho de mais verdadeiro e meu, que sou eu mesma e tudo de mais que bom que existe em mim.
Ando lutando contra meus monstros interiores, mas isso nunca precisei te contar. Você sempre sabe quando estou conseguindo lidar comigo e quando apenas suporto e finjo sorrir. Diante das minhas verdades fico prostrada, simplesmente sem entender como todos aqueles que convivem comigo todo dia não sabem e você que jamais me viu pode saber. Ai eu descubro que sempre que falo você se cala e em silencio me escuta. Que você guarda as boas conversas arquivadas em algum lugar do seu cérebro fenomenal e sempre que precisa consulta-las, lá estão às verdades explicitas e as implícitas.
No dia que disse que eu devia repensar minha maneira orgulhosa de ser, você me deixou irritada, e isso depois de meditar me fez ver que você tem razão. O orgulho que tenho é um mal maior do que qualquer tristeza real ou imaginaria que me ocorra. E ontem quando disse que diferente de mim você tinha ‘fé nas pessoas’ eu achei ridículo. Como assim? Tenho fé, obviamente que tenho.
Não tenho. Você tem razão de novo. Foram tantas decepções por acreditar que simplesmente não tenho fé alguma em ninguém. Não acredito em nenhuma bondade e ainda creio na teoria da conspiração contra mim. De todos os cometas que vieram, de certo, nem todos foram ameaças terríveis, nem causaram danos irreparáveis. Mas, é o que fica. E por alguma razão no meu caso ficaram as cicatrizes e feridas e não o bom que outros trouxeram.  E depois de confidenciar isso, como imagina que seja minha cabeça? Uma horrenda melodia? É bem por ai mesmo! E só você sabe... Somente você é que sabe.

sábado, 19 de julho de 2014

LEMBRANÇAS DE VIDA


Sai cedo aquele dia porque no intimo acreditei que seria bom para minha imagem ser pontual ao menos uma vez na vida. Infelizmente não foi esse o caso... Odeio esses sábados vazios e cheios de incômodos. Aquele trânsito estava infernal, aquele calor, sufocante, aquele barulho, enlouquecedor. E aquele cara do carro prata buzinando piorava em muito esse cenário. Um xingamento dele foi suficiente para em minha mente despertar antigas lembranças... Estava com meu pai num dia daqueles. Ele me instruía a lidar com o próximo nos trânsitos engarrafados da vida. E diante dele na mesma situação aquele cara do carro prata estaria completamente diminuído. E que meu pai era meio ‘exaltado’ eu diria. Não foi violento sequer uma vez na sua vida, mas tinha um terrível temperamento agridoce que nos aporrinhava na convivência diária e no engarrafamento então, ele só não dizia PADRE NOSSO, porque para adiante podia se ouvir de modo estridente sons intensos e recheados de verbopalavrõesia, ou seja, uma hemorragia interna de palavras obscenas e até constrangedoras... Ri muito por ter me lembrando do meu pai. Foi uma ótima lembrança... E senti que ainda sentia muito sua falta e me veio à cabeça que jamais iria realmente aceitar sua ausência.
Meia hora depois o sinal abre e todos saem como foguetes, e eu, obviamente a este ponto já não podia crer que aquele seria finalmente o dia em que chegaria na hora. E estava certa. Mas, meus pepinos me aguardavam na sala de espera do meu escritório, e por mais que desejasse fugir, tinha mesmo é que respirar e encarar aquele tal de senhor Turner insuportável que vinha sendo minha dor de cabeça há semanas. Ao entrar na sala com a cabeça abaixada para não tropeçar no carpete com aquela pilha imensa de dossiês, deparei-me com lustrosos sapatos pretos, Victor Hugo, com designer exclusivo e arrepiei-me de pensar que estava tão atrasada logo hoje!  Sapatos assim só poderiam estar calçando certo ‘chato’, muito familiar para mim por sua arrogância. Cumprimentei-o sem graça dando-lhe boas vindas, mas na verdade queria mesmo era esta me despedindo dele.
- Bom dia, como esta? Há muito que me espera? Tive um contratempo, infelizmente, desculpe-me por isto (E sorri risonha e suportável).
- Bom dia! Não há muito tempo para você que só ocupa-se de assinar contratos, mas para alguém como eu que vivo o meu tempo como um habito religioso, óbvio que sim! Meia hora é muito tempo, são inúmeras coisas da minha vida que se perderam aqui nessa sala fúnebre olhando sua janela empoeirada e esta escrivaninha que é um caos.
Fiquei em silencio porque jamais, nem no meu pior pesadelo, imaginei que ele faria um discurso diante de um simples bom dia, mas também passei o detesta-lo mais depois do inconveniente. Dali em diante apenas suportei olhar a cara dele de entojo e mais, como boa profissional, assinei seus contratos e sorri na despedida desejando sinceramente, e de todo meu coração, que na volta ele encontrasse um transito terrível e alguém bem preparado como meu pai para ensinar-lhe bons modos. E só de saber que o que desejei não era tão difícil de acontecer já me sentia vingada. 

Na verdade, o Sr. Turner mudou minha vida com suas observações pertinentes sobre o tempo e como o gastamos, mas isso foi depois de muitas outras reflexões. Por incrível que fosse naquele dia já era a segunda vez que um cara estranho me fazia sentir saudade do meu pai.

Virei-me apressada e segui sorrindo, chamei minha assistente e disse...
-Pode pedir para o próximo entrar, por favor!
Bati a porta e pensei ‘num sábado qualquer vou a praia velejar para sentir-me leve como a poeira que agora estava embaçando o vidro da minha janela... ’

   E apesar de saber que não tinha nada a ver, de algum modo pensar isso me libertou!