quinta-feira, 25 de setembro de 2014

...O AMOR



‘ Quem irá dizer que não existe razão nas
 coisas feitas pelo coração? Quem irá dizer?’
( Renato Russo- Eduardo e Monica)

Ainda dormia em plena terça as dez quando meu celular me desperta com sua ligação. Uma surpresa, um atender sem preparação e aquele sotaque novo e encantador me dizendo ‘oi’. ‘Bom dia? Como está’... Memória curta essa minha, não lembro se dei bom dia. Espero ter dado, uma sensação de estupidez me tomou e certo vazio. Queria ter sido gentil, mas acordando sempre foi meio complicado para eu ser simpática ou pelo menos feliz. Mas, eu sorri, e disso eu lembro. Com certa felicidade infantil de ouvir sua voz e também de estar mesmo acordando... ‘Não quero incomodar’, você disse mesmo isso? Não me incomodou, será que eu fiz pensar que sim? ‘Que droga’, penso chateada comigo. E depois de algumas palavras, você sem graça, parece ir embora, tem a pressa que já não tenho e me desconcerta. Mas, seu gesto, sua gentileza permanecem respiráveis no ar do meu quarto frio e de algum modo findam por aquecer um pouco o meu coração birrento.
Depois rapidamente me desfaço dos lençóis e do sono da noite anterior que se espalhou mornamente pela manhã. Há tanto para fazer! Deus do céu, inevitável não imaginar a catástrofe de você não ter ligado e não ter me acordado... Sorrio, um riso intimo e leve, uma prece singela em homenagem a você. ‘Salvou meu dia’, esse pensamento consola-me e me dá certo animo. Vou ao banheiro e olho-me no espelho como se procurasse algo familiar em minha face além dos olhos inchados e o cabelo bagunçado. Mas, não há nada e sinto certa estranheza. Escovo os dentes e vou à ducha... Agua fria! Resmungo enquanto sinto-a tomar-me por inteiro e fazer-me tornar parte do nada. Gotas fortes que caem sobre o invisível!
Sigo para cozinha com minha caneca em mãos, busco com certa pressa, até habitual em mim, a cafeteira e preparo meu café, ‘um livro’, noto que esse pensamento anda comigo associado. Acabo, enquanto encho minha caneca de leite e café lembrando que preciso comprar algo novo para ler, sinto-me bem de pensar isso e isso também me lembra de você. ‘Espero merecer uma boa conversa com você’, e é impossível não pensar em suas ocupações e sua voz no telefone a me acordar... Sigo com minha caneca na mão, olho-a distraída e suas listrinhas coloridas, lembram-me a minha amada mãe (rsrs) roubei dela aquela caneca que tanto gosto. ‘Você levou minha caneca não foi?...Saudade de minha mãe...
Então na cama com os pés entrelaçados, abro o notebook, sob o colo, ansiosa, um rebuliço no estomago... Você escreveu para mim e fico adiando essa leitura como adio abrir um chocolate... Certo receio de que aquele momento se perca e eu o retenho o máximo que posso... Mas, aí eu termino cedendo ao meu desejo de saber o que há lá e leio... Aprecio, devoro. E devoro, e devoro para sempre!


(Dedicado ao cronista mineiro Marcelo César Silva)


quarta-feira, 17 de setembro de 2014

A MENINA QUE ROUBAVA

 

Sentia paz no cafuné da sua vó. Você pediu para não escrever sobre nós, disse que seria um acordo, eu e você... Seriamos um segredo, mas você se foi e não me resta mais razões para guarda-lo, não me restam razões, pelo modo abrupto de sua partida, para não contar ao mundo como você foi genial, apaixonante, serio, chato e confuso. Você me disse para ‘roubar sem roubar’, e eu roubei você, é o feitiço contra o feiticeiro. Eu te ouvi, e roubei suas histórias, que talvez um dia eu conte, ou não conte, verei no futuro o que fazer com elas, eu roubei seu silencio que tanto você aprecia e roubei a solidão que você tanto venera. Roubei ainda mais e tenho provas concretas, roubei nossas conversas, roubei um áudio com sua voz que tanto queria, e que confesso, ainda ouço, às vezes, a noite só imaginando que você ainda pode voltar. Roubei seu charuto cubano e sua vontade de que eu ficasse sempre depois e depois... Roubei sua paz por alguns dias, roubei suas risadas, e deste roubo em especial eu me orgulho, e você não podia dizer que não eram reais, não pode nem mesmo agora dizer que foram ilusão, elas mergulharam na alma e bagunçaram todo o universo, elas fundiram-se a poeira estelar e eu jamais vou esquecer toda profundidade delas. Também roubei flores para enfeitar seus dias, e roubei horas para te fazer feliz...
E hoje, por uma razão tão simples como o gesto de respirar eu me lembrei de sua passagem rápida na minha vida, como um rio que segue seu fluxo natural através de qualquer obstáculo, você seguiu seu rumo, mas não antes de deixar algumas lembranças, que nem queria guardar, mas guardei, e certa saudade meditativa que proveio sem duvida de você. Um rapaz caminhava na minha frente e tinha uma moça loira do outro lado da rua, ambos caminhavam trocando olhares e sorrisos. Arrisco-me a afirmar que foi um flerte de uns quinze minutos, sem interesse, no entanto, e digo isso porque não havia obstáculos reais entre eles, somente alguns passos e poderiam se conhecer, mas não foi o que aconteceu. Andaram e andaram, olharam e olharam... E ai, inesperadamente, Bum! Chegamos à esquina, uma perfeita metáfora da vida são as esquinas, ali se interrompeu o flerte, a companhia, o olho no olho, ali deixavam para trás o que podia ou não ser e simplesmente seguiam em frente... E a vida foi assim e você também... Tanto o rapaz quanto a moça loira do outro lado da rua e também você, todos dobraram a esquina sem olhar para trás. E se foram sem adeus!
E apesar de tanto pequenos furtos, você me venceu... Você roubou o meu direito de saber o porquê, roubou de mim a chance de te dar o abraço final, roubou a oportunidade de vê-lo ou ouvi-lo uma ultima vez, mesmo que fosse para te ouvir-te dizer ‘maldita despedida ou maldita escritora romântica’. Não mais vou falar de você, pensar em você ou sonhar com você, mas vou sempre lembrar de que de todas as minhas pequenas fraudes secretas, a maior delas foi ‘surrupiar’ umas de suas risadas e estas jamais poderei esquecer, e confesso, estão guardadas no meu baú, num potinho laranja com uma tarja branca com o nome do legitimo dono!

É NÓIS!

Assisti a um filme em que os dois personagens estavam condenados à morte, e foi um drama, com direito a pipoca e tudo, mas apesar do serio problema de saúde, acaso todos nós não estamos também fadados a morrer? Acaso para nós outros esta não é a única certeza de quem está vivo, de que um dia será premiado com a morte? Acaso, eu ou você não temos também somente o hoje e apesar dos planos, quem nos pode garantir um amanhã nesta terra? Ninguém né! Triste e dura realidade, você e eu também vamos morrer... Mas, enfim, não foi para fazer uma meditação que me lembrei do filme, mas uma coisa mais sutil me prendeu nele. Havia outro casal (que não era o principal) cujo lema era a palavra ‘sempre’, era como se a cada vez que pronunciassem isso estivessem se abraçando com essa palavra, e depois surge algo bem delicado entre os personagens principais e também um lema, estes dizem ‘okay’, ‘okay pode ser nosso sempre’, e é assim... Esse okay era seu modo de dizerem ao outro ‘você não está mais sozinho, eu estou aqui’.

E tudo isso é só para chegar até eu e você e nosso lema que mais parece coisa de corintiano, se bem que tu és mesmo corintiano, mas não existe mesmo ninguém perfeito né? Rs. Bem, acho que eu que disse ‘É nóis’ primeiro, ingenuamente, pois nem supunha que você era do Corinthians, mas daí a gente meio que naturalmente adotou essa expressão como um modo de dizer ‘tamo junto’, ‘você esta comigo’, ou simplesmente ‘é nóis’!

Era sábado à tarde e você corria contra o tempo, contra os cachorros, contra o acaso de não saber e contra a droga dos serviços ruins e pela metade que eram oferecidos, e tudo isso por um premio final que era o meu olhar, ou eu te olhar. E no meio daquela imitação de tormenta, simplesmente surgiu à necessidade de te dizer que você estava bem, estava protegido, estava comigo, que você podia ficar sossegado com isso, que no final da tarde tudo já estaria bem de novo, e de novo, e de novo. Daí veio à coisa mais besta, eu disse sem ao menos pensar nela ‘É nóis!’, e pegou... E ficou... E ficamos... E ficaremos para sempre! E apesar da agressão que fazemos ao nosso bom e querido português soa até bem a gente inundado de sentimentos bons dizendo 'É nóis'.