quarta-feira, 17 de setembro de 2014

A MENINA QUE ROUBAVA

 

Sentia paz no cafuné da sua vó. Você pediu para não escrever sobre nós, disse que seria um acordo, eu e você... Seriamos um segredo, mas você se foi e não me resta mais razões para guarda-lo, não me restam razões, pelo modo abrupto de sua partida, para não contar ao mundo como você foi genial, apaixonante, serio, chato e confuso. Você me disse para ‘roubar sem roubar’, e eu roubei você, é o feitiço contra o feiticeiro. Eu te ouvi, e roubei suas histórias, que talvez um dia eu conte, ou não conte, verei no futuro o que fazer com elas, eu roubei seu silencio que tanto você aprecia e roubei a solidão que você tanto venera. Roubei ainda mais e tenho provas concretas, roubei nossas conversas, roubei um áudio com sua voz que tanto queria, e que confesso, ainda ouço, às vezes, a noite só imaginando que você ainda pode voltar. Roubei seu charuto cubano e sua vontade de que eu ficasse sempre depois e depois... Roubei sua paz por alguns dias, roubei suas risadas, e deste roubo em especial eu me orgulho, e você não podia dizer que não eram reais, não pode nem mesmo agora dizer que foram ilusão, elas mergulharam na alma e bagunçaram todo o universo, elas fundiram-se a poeira estelar e eu jamais vou esquecer toda profundidade delas. Também roubei flores para enfeitar seus dias, e roubei horas para te fazer feliz...
E hoje, por uma razão tão simples como o gesto de respirar eu me lembrei de sua passagem rápida na minha vida, como um rio que segue seu fluxo natural através de qualquer obstáculo, você seguiu seu rumo, mas não antes de deixar algumas lembranças, que nem queria guardar, mas guardei, e certa saudade meditativa que proveio sem duvida de você. Um rapaz caminhava na minha frente e tinha uma moça loira do outro lado da rua, ambos caminhavam trocando olhares e sorrisos. Arrisco-me a afirmar que foi um flerte de uns quinze minutos, sem interesse, no entanto, e digo isso porque não havia obstáculos reais entre eles, somente alguns passos e poderiam se conhecer, mas não foi o que aconteceu. Andaram e andaram, olharam e olharam... E ai, inesperadamente, Bum! Chegamos à esquina, uma perfeita metáfora da vida são as esquinas, ali se interrompeu o flerte, a companhia, o olho no olho, ali deixavam para trás o que podia ou não ser e simplesmente seguiam em frente... E a vida foi assim e você também... Tanto o rapaz quanto a moça loira do outro lado da rua e também você, todos dobraram a esquina sem olhar para trás. E se foram sem adeus!
E apesar de tanto pequenos furtos, você me venceu... Você roubou o meu direito de saber o porquê, roubou de mim a chance de te dar o abraço final, roubou a oportunidade de vê-lo ou ouvi-lo uma ultima vez, mesmo que fosse para te ouvir-te dizer ‘maldita despedida ou maldita escritora romântica’. Não mais vou falar de você, pensar em você ou sonhar com você, mas vou sempre lembrar de que de todas as minhas pequenas fraudes secretas, a maior delas foi ‘surrupiar’ umas de suas risadas e estas jamais poderei esquecer, e confesso, estão guardadas no meu baú, num potinho laranja com uma tarja branca com o nome do legitimo dono!