quinta-feira, 23 de junho de 2016

-SUA LEMBRANÇA

Caminhamos na chuva como velhos conhecidos, na minha cabeça aquele momento inicial, uma pergunta, um sorriso, um pedido e um vínculo formado, na tua só uma lembrança vaga de uma pergunta meio incerta. Eu sorria de lembrar, você bem mais contido parecia nem sequer pertencer ao mesmo mundo que eu nesse momento.
Caminhávamos em silêncio e me veio à mente a razão tola de não ter imaginado que poderia chover, para trazer meu guarda-chuva. E você, inquieto parecia querer confessar um erro, ou um pecado ou uma decisão da qual eu possivelmente não iria gostar. Estava já à flor da pele ‘não vou pressionar’ havia prometido isso, maldita hora que fiz tal promessa, promessa estúpida... Estava na cara que ia dar em nada... Mas, você continuava com aqueles passos falsos como se desejasse fugir daquele momento, e dos meus olhos que demoravam-se sobre sua pele, mas fugiam com algum temor também quando deparavam-se com os seus. Queriam e ao mesmo tempo tinham medo de adivinhar seu pensamento. ‘Talvez fosse melhor mesmo nem existir esse momento, talvez fosse melhor nem saber... Talvez... ’ Veio vagamente a minha mente que a chuva havia passado e aquele sol abrasador queimava no meio do céu,tão azul, que parecia improvável ter chovido há pouco.
A calmaria do mar, o balanço suave das ondas, o sol despedindo-se leve e com seus fulgidos raios vermelho tormenta, tudo isso abrandava um pouco a corrente enérgica que percorria avexada minhas veias pulsantes. Tudo poderia apontar que ali era um começo, mas no nosso intimo sabíamos, mesmo sem ter sido dita uma palavra sequer, depois de 15 minutos de passos preguiçosos, que era um fim de algo que nunca nem existiu. Talvez depois que alguma boca se abrisse o chão do outro rachasse sobre seus pés e uma onda profunda o engolisse, ou talvez um raio sombrio abrisse em dois o seu coração, ou ainda era possível que algo pior que tudo isso pudesse ocorrer. Mas, quem falaria primeiro?
- Como vai, então?
-Indo... – Estava sentindo um iceberg de gelo entrando pelos meus tímpanos, essa voz antes quente estava congelando meu sangue... Desejei que não falasse mais nada.
- Preciso te contar algo... Bem... Nem sei como dizer... Mas...
Interrompi com um beijo... Queria a morte não o fim da frase... Não queria ouvir que tinha se apaixonado por outra que apareceu do nada, que o levou assim num piscar de olhos... Não podia ouvir aquilo!
Afastou-me com pressa. Morri então... E ele também morreu... E assim foi para sempre rompido qualquer vinculo criado ocasionalmente entre nós naquela bela tarde, que confesso nunca esteve mais viva na minha mente como nesses últimos dias...