sexta-feira, 12 de agosto de 2016

-NOSSA MÚSICA

     A música que tocava naquele velho piano era uma poesia nascendo em mim e emocionada pela beleza e leveza do deslizar dos seus dedos enrugados e frágeis pelas teclas cansadas, terminei nem notando que despertava uma parte de mim que já acreditava não mais existir. Mas, do nada vieram a minha mente lembranças bem antigas, daqueles outros anos mais joviais e menos inundados desse marasmo que hoje me cerca.
    Estava voando nos seus braços, sob o céu azul de janeiro, o mundo era nosso. Naquele dia o sol havia sido o mais brilhante, e as nuvens as mais belas formas já vistas, á noite a lua exuberante concluía o espetáculo que havia sido viver aquele dia do seu lado. Outros tempos, outras energias fluíam de mim como se a sua música me pudesse fazer reviver, voltei aquele dia e me tornei eterna.
    Quantos sonhos se perderam pelo caminho? E quem hoje somos eu e você? Ambos fomos tudo um para o outro naquele dia, e hoje parecíamos estranhos separados pela vida cotidiana, às vezes tão sofrida, às vezes tão medíocre, outras tão felizes. Quanto de nós se perdeu pelas esquinas viciadas da vida que escolhemos com tanta esperança compartilhar? E quanto disso realmente foi necessário para sermos felizes, apesar dos pesares?
    Talvez fosse o vento naquela nossa mangueira que mais me lembrasse de você. Talvez o fato de ter ido tão cedo nossa paixão fulminante, de não termos mais aquela imensa onda de fogo invadindo nosso peito, talvez a dinâmica de criar filhos, netos, bisnetos, tenha acabado fortalecendo outra coisa que trazíamos conosco e mesmo admitindo que o amor não é o mesmo, fico feliz que tenha corrido água por este sentido do rio.  
      Hoje, mais amigos que amantes, vejo que o que realmente importa é estar aqui ouvindo você como nos velhos tempos tocando essa música que sempre acaba me fazendo voar, como voei naquele dia de outros tempos em que vivenciamos as noites mais estreladas de nossas vidas.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

-MINTA PRA MIM!



João Pessoa, 11 de Agosto de 2016

Olá Princesa,

Como estará você agora?  Pergunto-me como eu estou agora que finalmente curou a dor e já posso te escrever com a certeza mórbida de que em mim não há mais mágoas a serem remoídas e que jamais lerá isso. Como eu estou? Espero sua resposta e sua pergunta.
Escreva-me e finja que se importa, finja que não pode viver sem mim, minta (como sempre faz) que aquele era seu primo, que foi um beijo de amizade e que sou o único que realmente você pode amar.
Minta que estavam do lado da cidade que chovia e por isso estava com pouquíssima roupa, que tem medo de resfriado, mas que pudor, que não queria ficar doente, que precisa se cuidar para mim, que jamais trocaria o brilho vibrante do meu olhar pela luz fosca dos dele. Minta!
Minta que já não sabe sem mim o que é sorrir, e que respirar dói, tá difícil, sem saber se vou te perdoar e voltar para o teu lado.
Minta que seu céu já não é o mesmo, nunca esteve antes tão nublado, cinza, sem vida e que viver para você sem mim não tem nenhuma graça.
Minta que faltam sorrisos e você finge para não preocupar sua mãe.
Minta, por favor, minta que ainda não me escreveu porque teve uma terrível crise de tendinite, que imobilizou seu braço esquerdo, que ser canhota às vezes num tem sentido.
Minta pra mim, diga que sente saudade, que quer me vê, mas todas as linhas de transporte de sua cidade estão em greve, que o metrô está em reforma, que o aeroporto está interditado pela presença de baratas na cantina.
Minta que sonha ouvir minha voz, mas os ladrões covardes levaram seu celular enquanto você capturava Pokémon.  
Minta, minta quanto quiser, mas não fique assim em silêncio por tanto tempo...