terça-feira, 27 de dezembro de 2016

-AINDA BEM QUE EU PEGUEI ESSE ÔNIBUS!

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Eu peguei o ônibus que faz o maior percurso por falta mesmo de opção naquele instante. Mas, o maior percurso transcorre dentro de nós um maior numero de pensamentos e para seres extremamente fáceis de devanear e perder-se em pensamento esse é até um momento de prazer singelo.
O fato é que senti ao longe um cheiro familiar, lembrei-me de casa... Da minha velha casa lá no curimataú, na minha Cuité que a chuva tem esquecido, com aquele cajueiro cansado na porta e sua imensa fadiga de seca, com seus retoques de isolada e sua áurea de saudade eterna de tempos que já não voltam mais... Sonhei ontem com a lua cheia, a lua mais linda do mundo, que em sua imensidão enchia os nossos olhos vista sobre a lagoa, aquele era o reflexo mais soberano e glorioso que havia naquele cantinho... Hoje está tão vazio, dá tanta saudade...
Lembrei-me então de outra eu que era bem mais jovem, bem menos cansada e mais sonhadora do que eu poderia descrever, lembrei-me do primeiro emprego (um dos) que deram um pouco certo, lembrei que aquele escritório cheio de papéis e números tinha um cheiro familiar como o que eu estava sentido agora... E eu já sabia definir aquilo que invadia minhas narinas me arrancando do presente e remetendo-me ao passado de anos juvenis, era cheiro de terça-feira! Isso mesmo! Aquele escritório tinha cheiro de terça-feira ou então a terça-feira é que tinha cheiro de escritório. Papeis e números confusos, lápis com borracha num vaivém infinito sobre aquelas folhas sofridas. Resquícios de memórias que se misturam e já não são nítidas, mas são profundamente tocantes. Outra lembrança que carrego de lá e o cheiro de móvel limpo, faxina de sábado e ‘chute’ de crescimento. Engana-se quem se espanta com tal expressão, aquilo foi o melhor que alguém poderia ter feito ou dito para aquela menina ‘Você não cabe aqui, porque você é muito maior que isso!’, quem não gostaria de ouvir algo assim? Tá bom, não foi bem assim, mas foi assim que significou para mim e no fim das contas não importa mesmo o que as pessoas falam, só importa o que a gente entende do que elas falam.
Acabando o trajeto se vão junto às memórias, creio que elas ficam perdidas entre uma curva e outra da estrada, as arvores as absorvem e ficam guardadas no seu néctar até que um dia do nada quando a gente menos esperar, a gente passa lá de novo e respira o cheiro da lembrança e torna-se feliz outra vez por mais alguns quilômetros de estrada!