segunda-feira, 7 de abril de 2014

A JANELA...

   Semana passada eu estava morto... E na minha mente apenas a ideia do que ainda viria. Essa semana que vem será terrível... Isso era uma ideia insistente na minha mente... Não pensar! Não pensar! Eu ficava tentando me fazer não pensar... Aplico PNL, autossugestão, que droga! Nada parece funcionar. E me conformo de saber que semana que vem será torta, incerta, incomoda, mas que logo vai passar tudo e serei somente eu e você.

   E eu e você iremos a sorveteria, depois a praça, depois ao outro mundo que é somente nosso, de ninguém mais. E a ideia de que possa dar errado me assombra, mas me acerca a certeza que tudo sairá bem, em toda incerteza, logo essa certeza e não tem a ver com você. E você ainda não ter chegado me espanta, você é sempre tão pontual. Será que esqueceu? Não poderia esquecer nosso sorvete, e os sonhos e toda vida juntos... Não, acho que não poderia esquecer. Em outros tempos até me preocuparia com seu atraso, hoje não. Tem uma trave na mente, só penso na semana que vem e na vida. Engraçado, em você não, mas penso muito na vida. Nos erros, que não gostaria mesmo de cometer, nos que já cometi, nos que ainda poderei cometer e tudo fica rodando, dando voltas loucas, atravessando dimensões na minha cabeça. 

   Ouço uma musica suave, acalma-me de um modo esquisito, como quando você sussurrava ‘eu te amo’ no meu ouvido enquanto eu fingia que dormia... Nunca tinha falado, talvez nunca tivesse mesmo tido a oportunidade de dizer isso a você, você andava tão longe, tão perdida dentro de si mesma, que me esqueci de contar que suas ‘gracinhas’ me acalmavam como a música acalma os bebes. Talvez eu nem quisesse mesmo contar, gosto de me sentir misterioso, guardião de segredos. E quando alguém me olha sabe que escondo algo e isso me agrada. Era como a minha mania secreta de observar. Eu contava dentro de mim os casos e procurava sentidos, razões e explicações, muitas vezes, como se competisse a um juiz particular que mora em mim julgar tudo, salvar e condenar... Isso também estava nos meus pensamentos agora, mas você não. E olhando distraído pela janela, na catedral aquele enorme relógio marca 15h, está tarde e você não apareceu. Acho agora que já não vem e não se importa... No intimo também sei que não me importo porque minha mente está na semana que vem e não nessa, nada no agora me interessa muito.

   Ponho os livros na mochila, olho de novo pela janela e lá está o sol caindo do céu como numa partida de futebol que se finda e o meu tempo se esgota rapidamente... E pondo a mochila nas costas, fecho à janela, as cortinas, pego as chaves e sigo em direção à porta... Giro duas vezes a chave na fechadura, estupidamente penso que deveria haver alguém pra se encaixar em mim... Desço as escadas passo a passo como um condenado no corredor da morte, e ao sair o sol está bem diante de mim se despedindo, tenho a impressão que ele sorri, mas não poderia afirmar nada. Ponho as mãos no bolso e sigo rua abaixo. E semana que vem... Que venha, não estou nem aí...