sábado, 24 de janeiro de 2015

-DESPEDIDA


 É estranho ter que se despedir de alguém que foi sempre um vulto nos meus sonhos, um alguém que eu não pude ver sorrindo, nem tampouco me viu sorrir... Mas, estranho é sentir essa dor, agonia e ao mesmo tempo um certo alivio por saber que seria egoísmo continuar a aprisiona-lo numa vida tão calamitosa. Seu Joaquim, aquele com quem planejei partilhar grandes coisas, talvez um café quente, ele com cara de poucos amigos, mas sempre comigo era diferente; compartilhar os segredos do quarto de dona Terezinha, e feliz sorrir quando ele soubesse que o filho ia ter um herdeiro.  Uma bênção que não veio, ele segurando o braço do filho e confiante me entregando ele ao altar, aqueles olhinhos fortes e curiosos, de um grande guerreiro me dizendo que sou a pessoa certa. 'Juízo hein' ele ia dizer te olhando Amor! Depois disfarçaria uma lágrima e seria um dos dias mais felizes de sua vida... Seria! Ele não pode esperar por mim, teve pressa de liberdade, de paz... E se foi...
  Como seria bom se não fosse assim o existir, hoje talvez sejamos, amanhã nem isso... Quem pode saber... Queria não prantear, aceitar assim...Naturalmente.. Mas, não consigo, segue viva em mim a chama do que não foi, perturba-me o não ter dado tempo de nada, sinto falta da voz que não ouvi, do olhar que não apreciei, do almoço que jamais dividimos ou dividiremos. E aquele texto seu Joaquim que era em memória de sua amada Terezinha também não deu tempo... E agora, será em memória do que não pude ter, de quem não pude conhecer, de uma saudade estranha porque é sincera e ao mesmo tempo surreal, todos os nossos encontros, foram encontros mediados por seu filho, meu querido, e agora não há mais saída... Só aquele vazio que pessoas especiais deixam... E algumas lágrimas quentes que brotam enquanto ponho sobre sua nova morada um humilde buquê de tulipas...

                                                                        In Memorian: Joaquim (23/01/2015)


quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

- RÉVELLION

Eu tinha me esquecido de sonhar... Tinha me esquecido de fazer planos que sei que nem vão ser reais. E da sensação que sinto no estômago quando imagino que podem ser. E me vem à mente você. Sua voz de trovão abalando minhas estruturas. Planejo estar completamente só na sala, com aquele roupão nada sexy, deito descolada no sofá. Um pote de sorvete no colo e a meia-luz começo a pensar na vida. Realmente é um péssimo momento para pensar na vida, mas aquele silencio ali me puxa e obriga ao pensamento, a sala inteira cheira a reflexão. Olho pela janela e as luzes da rua estão apagadas, ‘bairro residencial, droga, todos dormem cedo’. Sinto um pouco de raiva de estarem todos em suas camas a ressonar tranquilos e eu ali com todos aqueles grilos. Ligo a TV pensando encontrar um refúgio, músicas ruins me afrontam e me vencem fazendo-me desliga-la imediatamente. Desejo no coração algo em secreto que apenas Deus pode saber. Não tem a ver com você, nem com sua voz, nem com seu abraço quente... Nada disso... Ou quiça tenha... Naquele escuro, abandono o sorvete e vou a janela conversar com a lua que a está altura deve ser a única da cidade a estar desperta como eu. ‘Onde estará?’... Que pensamento insistente. Passa pela minha mente os gêmeos, o sorvete, o fondue, você cantando alguma coisa... Aquilo tudo que não vivemos, mas que um dia sonhamos juntos deitados na sua cama grande e acolhidos um nos braços do outro. Minha mão sob teu peito e a sua repousava suave sobre ela. Entrelaçadas como as veias do coração, como as ramas de flores da alma. Chovia lá fora quando planejávamos os gêmeos, tinha a sua pressa, minha indecisão, e depois eu sorria abrindo mão de tudo, você havia ganhado outra vez. E eu era sua para sempre!
Toca minha campainha e distraída, sem imaginar quem estaria ali a me importunar em plena virada do ano, quase a meia-noite, e atrapalhar minhas meditações, eu abro sem cerimonia... Congelo segurando o trinco da porta como se seu gelo tivesse se transportado para meu corpo. E fico muda ao ver seu sorriso, e notar seu cabelo molhado de garoa, suas flores tão atraentes, mas não mais que seus olhos quentes sobre mim. Estendo minha mão indicando para que entre e me pergunta se senti saudades? Antes que possa responder, pensar ou trancar a porta, você larga tudo e me beija como se fosse o único beijo de sua vida, a única mulher do universo, o ultimo instante de sua respiração. Nesse momento não posso estar no seu mundo... Sou o seu mundo! E a vida é engraçada, pois podia jurar que ia passar essa noite completamente só, e apesar de não mais me apavorar com isso, você veio. Apareceu com aquele vinho e com a garoa nos cabelos pretos... Com a voz de trovão chama meu nome... E não estou mais só!
De repente estou nos teus braços, com sua camisa de futebol americano e fazemos planos de novo... Aí chega o ano novo... E tudo fica bem.