- A FAXINA
Estava
arrumando a casa, distraída com música alta, faxina para mim é um castigo
necessário. Cantarolava com a voz rouca de uma semana intensa no trabalho e alguns
artistas erravam de propósito a letra, para estranhos iria parecer que eu não
sabia aquela música. Mas, claro que eu sabia né?
Ao jogar a vassoura embaixo daquele móvel velho junto da cozinha, algo me prendeu, ao que eu puxei com mais força, voilà! Ali estava um impressionante caixa de música de madeira que parecia feita à mão, parecia ter saído de uma revista retrô. Uma antiguidade extinta que minha geração nem saberia para que serve, mas eu como uma maravilhosa e talentosa historiadora, claro que sabia né? Me mudei para essa casa abandonada há mais ou menos 2 semanas e ainda não havia parado para apreciar a maior conquista na vida de uma CLT, ter sua casa própria. Usada, velha, caindo aos pedaços, mas com preço atraente para quem vivia de aluguel e não podia nem ‘peidar’ para não incomodar os vizinhos. Aceitei de cara que aquela casa anunciada na OLX como uma relíquia inestimável era meu destino. E aqui estava eu, mudada, mudando a aparência esquisita e até meio sombria de cada cômodo com minha luz única.
Tinham alguns móveis velhos, mas tão
charmosos que eu nem cogitei me desfazer deles, esse era um dos. Tinha uma
cristaleira, “meu Deus! que coisa mais fofa!” eu realmente gostei dela, só que quando
coloquei uma cadeira em frente e sentei calma para planejar alguma coisa, peguei-me olhando-a fixamente, e ela como se me achasse confusa parecia me
perguntar ‘-Como você pretende me usar? O quê exatamente dessas suas coisas
você pretende colocar aqui? Não tinha uma resposta para aquele móvel
questionador.
Queria
abrir a caixa de música, mas parecia que de algum modo o tempo havia parado e
ao olhar para ela só conseguia pensar nos outros móveis e na pergunta da Cristaleira,
o quê? Como pretende me usar? Talvez se contasse isso ao meu terapeuta,
ele em sua imensa calorosidade sorrisse e depois me pedisse de modo sutil para revisitar
meu psiquiatra, do qual me dei alta faz tempo, mas que sempre tive dúvidas se deveria
manter na minha vida como aqueles móveis, por apego ou por precaução.
Finalmente após essa pausa até meio dramática, resolvi adiar aquela curiosidade. Empurrei a caixa de volta com a vassoura e deixei para outro dia, outro dia eu ia descobrir o que fazer com ela também, mas hoje, hoje não!
