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- PAUSA PARA O CAFÉ

   Não fazia sentido, aqueles invasores ali fora, batiam cada vez mais forte na porta e eu ainda paralisada olhava pela janela curiosa e apreensiva. Afinal, de onde vieram todos eles? Por que estavam juntos naquele domingo de chuva?  De raspão ao puxar um minúsculo pedaço da cortina, estava ele sério com braços cruzados e cara de poucos amigos, seus traumas de infância denominava-se ele. Ao seu lado, até deu pena, juro! Tinha um baixinho, barrigudo, meio loiro, vesgo, que parecia ter alguma coisa torta na perna, era o complexo de inferioridade, que batia quase na altura da porta do pet. Ainda atrás deste tinha uma mulher toda de preto, não vi seu rosto, estava coberto com capuz, mas no seu braço tinham umas marcas de algemas, como se tivesse vivido acorrentada por muitos anos, parecia descrente quanto a eu abrir a porta, era a solidão, estava com uma placa colada na manga, parecia que algum engraçadinho fez bullying com ela. Parecia muito só e triste e isso me tocou demai...
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- TELA

 Era uma agonia olhar aquela tela na parede que parecia tão sombria. Aquele homem de roupa preta pesada com botas até o joelho, numa mão uma faca e na outra um coração! Perguntava-me sempre por que ela havia adquirido aquilo e ainda mais exposto ali na sala. Talvez pretendesse aterrorizar os visitantes, talvez fosse eu que ela desejasse espantar.   Bom, até aqui era apenas mau gosto o que achava que ela tinha. Mas, uma reviravolta me fez cair de queixos. De repente uma notícia se arrastava por entre os veus de fofocas e chegava aos meus ouvidos com esse tom mais ou menos " Ela fez isso mesmo? Roubou uma tela famosa e ainda expôs na sala? Meu Deus, quanta ousadia. Logo vi que ela não era normal".   O que mais me admirava ao pensar no que ouvira era ela, a tela, ser famosa e valer milhões. Porque que a Licy não era "normal" eu já sabia faz tempo., essa era umas das razões mais bonitas pelas quais eu gostava dela. Seu pensamento circular me encantava, ela dizia coi...

-NÓS TRÊS

     Nunca imaginei que nessa idade eu teria o privilégio de desfrutar da presença sublime da borboleta 88, uma das borboletas mais rara do mundo, cujo risco de extinção é notável, estava ali parada sobre o seu túmulo naquele domingo de sol.  Sabe o quanto de coisas peculiares e extraordinárias me passavam na cabeça naquele instante minha amada? Do tanto de vezes que, nem no mais lindo sonho de um biologista das antigas, ele poderia imaginar isso. Ali estávamos eu e ela e você! Uma visão perfeita do paraíso. Seria tão bom se pudesse sorrir, com certeza seria aquele riso extravagante e charmoso cheio de uma alegria infantil. Seria possível que estivesse diante do milagre que você me mandou?! Quis pensar assim e ainda quero. Para mim o verdadeiro milagre foi envelhecer do seu lado, quando vi seu primeiro cabelo branco, você em desespero e eu somente em silêncio, sendo grato de ser eu a compartilhar esse momento com você minha linda amante.   Na lápide a frase...

-INTERRUPÇÃO

 "Você conseguiu, afinal! Falei que conseguia. Eu sempre soube. "  Essas frases estavam gravadas naquele vídeo cassete antigo em que você sorria, usava aquela roupa dos anos 60, aquele cabelo punk e aquele bigode nada a ver. Seu cabelo tipo "Ovelha" era bem estranho, parecia ruim e bom, era confuso. Aquela moça do seu lado risonha, tímida feito beata recém nomeada, aquele velho robusto, nariz comprido, testa alta, segurando a velha caneca Jack Daniels, a senhora do lado com a faca na mão parecia perigosa, mas apontava sorridente para o peru da ceia.   Foi nesse ano, mês de dezembro de 2024 que achei isso perdido entre pertences que não sabiam existir. Uma família que não conheci, de outros tempos. Uma vó fofa que fazia bolos, um vô que me levaria para brincar no parque enquanto papai e mamãe trabalhavam. Um tio que me oferecia guloseimas e fazia todas as minhas vontades. Havia uma família assim em algum lugar no tempo e eu pertenci a ela por alguns instantes soment...

- COLEGUISMO

 Olhei nos olhos dela e simplesmente estava furiosa. Fiquei furioso também, como ela podia mesmo depois de tanto tempo tolerar isso e ainda mais descontar em nós? Que ousadia. Eu odiava aquele colocar de cabelo repetitivo e metódico atrás da orelha incansavelmente. Odiava ela agora e ali! Queria gritar e esculhambar com ela sem arrependimentos. Eu juro que eu queria, mas infelizmente não podia .  Quando aquela mulher ranzinza chegou aqui, ela era uma bela mulher, não tinha esse frizz exagerado de cabelos brancos recém-nascidos. Não tinha esse ar de agonia e pressa. Eu mesmo vi ao longo dos anos seu bigode chinês começando a ocultar as faces de seu lindo sorriso. Eu também acompanhei seu trocar de padrão de vestimenta, de elegante a popular, de popular à careta demais. Guardava sempre na segunda gaveta um retrato dela mais jovem, o qual a pegava vendo vez por outra... Parecia lamentável seu olhar.    Vi aquela mulher de salto 15 começar aos poucos com as sapatilhas, d...

- ALHEIO

     Entrava na sala sempre olhando todos os cantos como um homem naturalmente preocupado e desconfiado de tudo. Sem telefone com internet, apenas a boa e solene ligação por voz. Sem rede social,apenas a cervejinha de domingo com os amigos no quintal a contarem histórias e rirem juntos. Sem YouTube ou Spotify, apenas seu rádio na estação mais musical que tivesse disponível. Era apenas ele é aquela montanha de velharias que ninguém mais queria possuir aquele ponto, frisando que ele as possuía de verdade e não elas a ele.   Fitava por horas um banco que podia ser visto da janela, nesses momentos distraído, para os espectadores, poderia-se dizer que não havia mais medos nele. Seus olhos eram profundos, brilhantes e intensos, quase que ardiam fixamente voltados àquela árvore envelhecida. De vez em quando surgia uma coisa no seu rosto que um romântico diria que é saudades, um poeta que era uma lembrança de amor. Afinal, quantos abismos moravam nele? E como ele podia apena...

- NUNCA, NEVER, JAMAIS!

 Incomodava demais que aquela marca de refrigerante tivesse estampado aquelas palavras " Nunca, never, jamais ". .. Assim, nessa ordem, para me provocar, só podia. Depois o jogador de basquete com aquela camisa laranja " Nunca, never, jamais " parecendo que estava fazendo uma contribuição exagerada à humanidade! E para variar agora até às crianças do bairro usavam uma fita do braço com as ridículas palavras " Nunca, never, jamais " era enlouquecedor!  Respondeu com os olhos semicerrados " Nunca, never, jamais , pensei em você desse jeito." Foram estas as palavras que ela vomitou quando ele declarou sutilmente seu amor. Aquelas palavras malditas do nada  lembravam-na sorrindo, aquele riso que era uma tatuagem amarga em seu coração...